| “Cantar, dançar e batom” Por Luciana Alves “Hoje mamãe me falou de vovó/ Disse que no tempo dela era bem melhor/ Mesmo agachada na tina e oprando no ferro de carvão/ Tinha-se mais amizade e mais consideração/ Disse que naquele tempo a palavra de um mero cidadão/ Valia mais que hoje em dia uma nota de milhão/ Disse afinal que o que é de verdade ninguém mais hoje liga/ Isso é coisa da antiga, oi na tina”. A música “Coisa da Antiga”, interpretada por Clara Nunes, remete à saudade de um tempo em que a velocidade interferia menos nas relações humanas, em que havia menos individualismo e mais reciprocidade. É com esta canção que Mariene de Castro inicia o show de seu Projeto Santo de Casa, na Praça Pedro Arcanjo, no Pelourinho, às 21horas e 45 minutos, no dia 13 de outubro de 2007. É sábado, dia em que a maioria das pessoas sai para baladas, bares, cinemas... Elas seguem com a única despreocupação de curtir a vida. Nem imaginam, quando vão, por exemplo, a um show como este de Mariene, a quantidade de pessoas que foram mobilizadas para que o espetáculo fosse possível. São artistas, assessores de imprensa, maquiadores, produtores, músicos, figurinistas, técnicos de som, fora os restaurantes e os bares, que funcionam no local do evento. O artista, além de trabalhar no sábado, dia da apresentação, labuta nos ensaios, em seus momentos de pesquisa a respeito de sua obra, na divulgação daquilo que é o seu ganha-pão, sua cachaça, sua vida. “Um trabalho de formiguinha”, como diz Mariene. Uma luta árdua pelo reconhecimento e pela sobrevivência. O palco está repleto de músicos, mais especificamente dez, e começa-se a ouvir suas batidas. De repente, a iluminação chega com Mariene Bezerra de Castro. Chamada carinhosamente por sua família de Ninha ou Mari. Inegavelmente linda, a cantora surge com um exuberante vestido dourado – produzido pela Loja Elementais – , com suas marcantes florzinhas no cabelo, os braços pintados de dourado e repletos de pulseiras largas também douradas. O dourado intenso tem explicação: é típico das filhas de Oxum. E Mariene é uma filha devota da Mãe dos rios, riachos, cachoeiras, fontes. O reflexo do temperamento e do gosto da Rainha das águas doces é forte em suas filhas. Tem prazer em se enfeitar, principalmente com cores amarelas e douradas. É capaz de centralizar as atenções. Na arte da sedução, não pode haver ninguém superior a Oxum. Em termos de seduzir platéias, Mariene não tem do que se queixar: com apenas um sorriso, gestos delicados ou um simples pedido, ela consegue fazer com que pessoas de todas as idades sambem. É um aglomerado de pessoas espremidas, crianças, adultos, gordos, magros, gente de todo o tipo balançando as ancas, rindo, brincando de ciranda, entrando no universo do samba. Ninguém tem vergonha de requebrar, de mexer as cadeiras, de celebrar a beleza da vida. Mas isso não poderia deixar de ser já que o som é contagiante. Mesmo que se tente se segurar e ficar parado, é impossível. É como se uma energia maior entrasse no corpo e dissesse a nós mesmos a necessidade que é se permitir sambar. Uma alegria individual e coletiva se sobrepõe e o movimento é bruto, brota de dentro. Do coração. Mas, Mariene, de onde vem tanto samba? “O samba vem da minha infância”. Quando tinha 5 anos de idade, ganhou seu primeiro vinil. Era um vinil de Luís Gonzaga, que seu avô havia lhe dado. Com 6 anos, ganhou de sua mãe o disco Beth Carvalho no pagode. Nessa fase de sua existência, sua mãe já namorava o pai de sua irmã, o qual a chamava de “coisinha do pai” – título de uma canção de Jorge Aragão, Almir Guineto e Luís Carlos, cantada por Beth Carvalho. Mariene ouvia bastante este disco, sambava dentro de casa, se vestia de baiana. E o samba de roda, como chegou em sua vida? Na casa da cantora, era de costume se preparar o caruru de São Cosme e Damião. “Essas músicas que eu canto hoje estão no registro da memória da minha infância. Eu me lembro do gosto e do cheiro do caruru”, conta Mariene. Atualmente, sua família é evangélica. “Minha tia disse para mim outro dia: ‘como é que você fala para os outros que a gente fazia caruru, Mariene?’. E eu digo a ela: ‘e eu vou mentir é? Agora vocês são crentes, mas antes meu avô cultuava caboclo’”. A mãe, a avó e a tia são evangélicas, enxergam o trabalho da cantora com respeito e vão aos shows. Ocorre mais uma apresentação da mulher que, quando menina sonhara em ser bailarina. De 1976 até aquele preciso momento, tantas coisas haviam se passado, tanto se havia vivido e aprendido. A infância sempre deixa vestígios e pistas do que o ser humano será no futuro. É como se o filme da existência passasse rapidamente no coração e na alma e fosse claro enxergar que o que se é no atual instante sempre esteve presente, minimamente ou não. Mariene não fugiria a essa regra. A menina nascida em Salvador, sempre gostava de passar as férias na casa da avó em Andaraí, na Chapada Diamantina. Tinha uma relação grande com aquela cidade, com o rio, no qual se banhava. Festa de Reis, festa para São Cosme Damião, festa do Divino. “Na Festa do Divino, cantei para o menino me abençoar”, diz um trecho da música interpretada por Mariene. Ela se lembra que esta era uma celebração muito forte na cidade. Tem o imperador, a imperatriz, a marujada, que toca para recebê-los. “Bastante coisa do universo da cultura popular eu vivi em Andaraí”. A primeira sensação dela em Andaraí era poder andar descalça na rua, pedalar de bicicleta, ficar na praça até tarde. Tinha vários amigos – “e até hoje, tenho”. A parte de sua família, que lá vive, é grande. “Eu tenho doze primos. São os filhos da irmã da minha avó e a gente é unido demais”. O vínculo de família é muito intenso. Algo que entrava diretamente em sua essência. Essência de Andaraí, das águas. “Só sei que era o lugar que eu mais gostava de ir. É onde minha alma se aquieta, onde eu melhor me encontro e me sinto mais feliz”. Um convívio com o interior preponderante para sua carreira. Sua voz grave denota a personalidade forte herdada de Oxum. Mulheres graciosas, com charme e beleza, admiradas e amadas são filhas desta Orixá. “Hoje, eu sei que eu sou de Oxum, sei da minha relação com a Andaraí rodeada de rio, mas naquela época, não sabia. Só sentia que eu gostava muito dali onde eu tomava banho desde pequeninha”, lembrança da menina que foi criada nas águas do Rio Paraguassú. Mariene diz que as pessoas falam que sua tranqüilidade e o jeito mole de falar são típicos do povo de Andaraí. “Meus primos que moram lá são exatamente desse jeito”. As mulheres de Oxum são bastante invejadas por chamarem a atenção de um modo diferente. “Eu não alimento essa coisa de inveja, por mais que eu perceba que alguém está cobiçando o que está em minha volta. Eu anulo isso, porque não é bom nem para mim nem para outra pessoa”, afirma Mariene. Ela diz não levar adiante nenhum tipo de intriga e segue o que já professava sua mãe, “quem tem advogado, não precisa brigar”. “Muitas vezes eu ouço que alguém falou mal de mim. Eu entrego a Deus, porque amanhã o universo traz de volta para ele. É ruim para quem sente”. Cada pessoa entra no Candomblé com uma missão diferente, umas por causa da hierarquia, outras por herança, por causa de saúde, por admiração ou afinidade. A espiritualidade chama no íntimo do homem. Segundo Mariene, ela foi escolhida pela religião. “Eu fui conhecendo pessoas do Candomblé ainda na minha infância. Eu tinha até uma amiga da escola, que a mãe dizia que eu era de Oxum”. Com o tempo, isso ficou cada vez mais presente em sua vida. Ela acredita que se encontrou em sua crença e que gosta da sabedoria de cultuar a natureza, de respeitar ao tempo e às pessoas mais velhas. “Coisas do Candomblé”. Mariene não teve o costume durante sua vida de freqüentar muitos terreiros. Quando chegou no Gantois há mais de dez anos, houve uma relação muito forte com a casa, sempre recebeu um reconforto grande. Quem a levou para o Gantois foi Jota Velloso, pai do seu filho, João Francisco, e ex-marido, que pertence à casa, na época em que ainda namoravam. Após 8 anos, ela também se tornou filha da casa. Ao nos relacionarmos com pessoas, naturalmente contribuímos para o crescimento delas de alguma forma. Para Mariene, Velloso foi uma pessoa que lhe acrescentou muito e ela acredita ter também lhe acrescentado significativamente. Ela o incentivou a ser cantor, pois ele era apenas compositor. Queria cantar, mas não tinha coragem. Por outro lado, Velloso lhe apresentou Roque Ferreira, Roberto Mendes, Dona Edith do Prato, Jorge Portugal e a cidade de Santo Amaro. Foi uma troca muito feliz. “A música que fizemos juntos foi gravada por Daniela Mercury e Seu Jorge. Eu cantei a música de Jota no disco de Beth Carvalho. Isso tudo vai fazendo com que ele vá sendo conhecido como compositor. Esse sempre foi o meu desejo. Eu dizia que queria ser uma cantora famosa para gravar as músicas dele, porque eu o acho um grande compositor, que não é reconhecido, aqui, em Salvador”. Mariene sempre quis ser bailarina, aliás, fez aula de balé clássico desde os cinco anos de idade. Mas, como foi que o balé surgiu na sua vida? Ela não sabe, porque em sua família não havia ninguém de dança. Acredita que fazia balé porque era uma menina com uma pura vontade de bailar. Achava bonito, era só o desejo pelo desejo. Com 12 anos, passou no preparatório do Balé Jovem do Teatro Castro Alves (TCA). Até hoje, vai para Ebateca e faz aula. Ela pensa que as técnicas foram e são importantes para sua base de sua interpretação, para sua desenvoltura no palco, que aliás não é pouca. Nesse momento, Mariene rodopia três vezes segurando o seu colar como se este fosse um pêndulo. Olha fixo para o chão e gira, parece um belo orixá em sua dança sagrada. Algumas pessoas assistem embevecidas ao espetáculo enquanto é irreparável que outras sambam extasiadas, sem olhar para o que ocorre no palco. Como os membros de sua família tocavam instrumentos musicais, surgiu o desejo de aprender violão. Além disso, aos 12 anos, enquanto fazia o preparatório do Balé do TCA, começou a haver um desejo em Mariene de ajudar sua família de alguma forma. Ela pensou, então, que a música poderia ser um caminho. A mãe, então, a levou a uma escola musical – a Pró-música – na Mouraria, próxima ao bairro que morava, a Avenida Joana Angélica. No momento, ocorria uma aula de canto. O professor de canto pediu para que a garota assistisse àquela aula sem compromisso e fez um teste só para ver o timbre da voz dela. Mariene ainda não havia se descoberto como cantora, cantava apenas em casa. Contudo, segundo ela, ninguém nunca havia lhe dito “Ah...Mas essa menina tem uma voz!”. O professor ficou impressionado com o timbre de voz, com o seu contralto, e aconselhou que fizesse aulas de canto. Disse à mãe de Mariene que ela tinha um tesouro em casa e não sabia. Após uma longa conversa, as duas foram convencidas a optarem pelo canto, já que não tinham condições para pagar os dois cursos. “Sabe o que me chamou para carreira de cantora? A necessidade”. Ela percebeu que o canto poderia gerar algum tipo de retorno financeiro. E realmente gerou. Foram as aulas começarem para Mariene receber convites para participar de corais, gravações, e ganhar uma remuneração imediata. Em dezembro de 1996, um amigo de sua mãe, Vicente Sarno, conseguiu uma pauta para Mariene no projeto Pelourinho Dia e Noite. A moça não tinha produtor, nem release, nem foto, nem nada, entretanto, montou o show repleto de músicas de compositores baianos como Roque Ferreira e Jota Velloso. Neste dia, dois produtores franceses assistiram ao show e disseram que estavam à procura de uma artista emergente. Eles, então, a convidaram para fazer uma turnê na França. “Lá eu tive um reconhecimento muito bom mesmo”. Tudo isso foi um susto para a cantora, pois estava no começo de sua carreira, com apenas 20 anos de idade, em sua primeira turnê, depois de sua primeira apresentação sozinha. Realizou 21 shows ao total. Em cada espetáculo que realizava, haviam críticos, que falavam bem de seu trabalho e a comparavam a Edith Piaf, cantora francesa de grande prestígio. Para Mariene, parecia um conto de fadas. Foi tratada como uma rainha, tinha equipe de técnicos de luz, técnicos de som, motoristas, jornalistas interessados em seu trabalho, hospedagem em hotel de qualidade. Conversava e cantava em português para o público, pois não sabia (e até hoje não sabe) falar francês. “Eu só falava ‘Bonjour!’, ‘Bonsoir!’ e ‘Merci beaucoup!’”, lembra a cantora em risos. Mas as pessoas iam falar emocionadas com ela, assim como nesse 13 de outubro, parecem estar. É interessante dentro da memória da artista a atenção para o fato de observar que aonde ia, na França, havia rios por perto. “Não tinha um show que eu fizesse que não houvesse água por perto, que não tivesse rio por trás do palco, rio por perto do palco, aí eu me sentia em casa”. Para Mariene, isso é decorrente da espiritualidade, de sua relação de fé para com Oxum. O show não pára e o samba de Mariene também não. Em seu espetáculo, a cantora consegue traduzir sua opinião de que “o samba está na essência do negro, produzido no momento da dor, no momento do trabalho, do sentimento mais profundo”. O sorriso expresso no rosto das pessoas presentes é marcante. Existe uma poesia nas músicas e na atmosfera, deste sábado, no Pelourinho. Mariene se enxerga – e acredita que é vista – como uma representante da cultura popular. “Eu recebi essa bandeira e disseram assim: ‘segura que você é a representante da cultura popular’ e eu disse:’venha!’”, diz Mariene. Ela se declara apaixonada pela tradição popular. O que faz de sua arte é pela história do seu povo, pelo respeito pelos negros que sofreram, pelos índios que foram exterminados dessa terra chamada Brasil. Enfim, pelo respeito àqueles que nos legaram a música, o swing de cantar e de sambar. Pela a herança do povo brasileiro que precisa ser preservada. Ela, agora, conversa com o público, agradece pela presença. Dança, canta, o samba parece brotar de seus poros a cada segundo. É o viver intensamente para si e para os outros. Uma alegria contagiante para os que a assistem. O sorriso, o olhar, o figurino, tudo conspira para o orgasmo que é para o artista estar no palco. Explosão de emoção para alguém que como diz em suas letras esperou bem esperado na sua caminhada. Em Abre caminho, música autobiográfica com que é iniciado o cd com título homônimo, um verso diz “Pisei no fogo sem me queimar”. Quer dizer, muito chão foi deixado para trás. Entre uma canção e outra, Mariene pára seu show, senta em uma cadeira perto de uma mesa contendo imagens de Oxum, e pega na mão de seu produtor o livro Clara Nunes: Guerreira da Utopia, do jornalista Vagner Fernandes. Ela conta ao público que há pouco tempo ganhou de uma amiga carioca esta obra sobre a vida de uma mulher, que é considerada a maior sambista do Brasil. Mariene, em sua autenticidade ao cantar, é muito comparada a Clara. Comparação esta que encontra fundamento não apenas na veia musical voltada para o samba e na presença de palco, mas também se assenta na função social do artista. Mariene, inclusive, lê um trecho da obra que ressalta essa qualidade da saudosa intérprete. "Hoje a participação do artista dentro da problemática da sociedade é fundamental”, estas foram palavras de Clara enquanto viva, no momento em que lutava por uma fé sincrética, por uma aceitação da cultura negra no universo da mídia brasileira. Mariene não fica atrás. Valoriza a cultura popular. Sempre está envolvida em apresentações com causas sociais contra o racismo, a homofobia e a aids, e em defesa dos cadeirantes e do meio ambiente. No dia 9 de setembro de 2007, inclusive, foi madrinha da VI Parada Gay, mostrando-se engajada contra o preconceito. Outra semelhança entre Clara e Mariene é o fato de ambas interpretarem canções de autoria de Roque Ferreira. Ele, um compositor presente na maioria dos discos de sambistas brasileiros a exemplo de Dudu Nobre, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila, foi lançado por Clara Nunes no LP Esperança com “Apenas um adeus”, em 1979. Das 16 músicas do cd de Mariene, Abre caminho, 8 são de Ferreira. “Garaximbola”, a faixa 8, é de autoria de Ferreira em conjunto com Paulo César Pinheiro, viúvo de Clara. Uma poética e cíclica coincidência. Aliás, a sintonia entre Ferreira e Mariene é perfeita. Segundo ela, o compositor foi a primeira pessoa que a intitulou como nova sambista do Brasil. “Ele foi quem me deu as pérolas que estão no meu disco”, declarou a mulher. Ferreira é um grande compositor, uma pessoa que carrega o samba, e é ovacionado no Rio de Janeiro. Por falar em Rio de Janeiro, quando ela foi para a capital carioca em julho, foi recebida com carinho, diferente de como seu trabalho é aceito em seu próprio estado de origem. “Eu acho que se eu tivesse com meu trabalho no Rio, ele já estaria em outro patamar, porque o pensamento do carioca não está ligado a estas músicas tocadas pelo rádio em Salvador, apesar do funk, do rap e da música americana”. A luta de Mariene é contra a falta de interesse a respeito do samba e de compositores da categoria de Roque Ferreira. Em seu espetáculo, não deixa barato, resgata os sambas de roda, as cirandas. Pessoas que, na maioria das vezes nunca se viram, dão as mãos e brincam de roda. Um dia após o dia das crianças, este show tem a capacidade de fazer com que gente grande volte à infância. É como a própria cantora discursa para o público: “É preciso que a gente mantenha sempre saudável o espírito da criança que existe dentro de nós”. E assim, ela canta música para Cosme e Damião, seus percussionistas entram no clima e utilizam brinquedos como instrumentos musicais. A interação com a platéia é uma constante: Mariene começa uma cantiga e eles completam. Na roda, homens e mulheres, de um a um, simplesmente seguem o imperativo do samba. “Eu estou vivendo a vida que o pajé me prometeu”, diz o verso da música “Poema para uma tribo – Vem pra minha aldeia” , de autoria de Clóvis, contida em Abre caminho. Mas será que Mariene se sente completamente realizada? “Ainda não” é a resposta dela. E quando se sentirá satisfeita? Ela ri e responde de forma faceira: “quando eu ganhar o mundo e ele conhecer a nossa arte”. Ainda existem obstáculos para sua carreira: está a quatro anos sem gravar por falta de incentivo, de viabilidade; o projeto Santo de Casa (deste show de sábado) ocorre sem patrocínio; a dificuldade do artista brasileiro ter uma boa estrutura para suas apresentações. A oportunidade de conquistar o mundo veio na época de sua viagem para a França. Mas Mariene diz que sua missão é aqui, em seu país natal. Sempre foi bem recebida e aplaudida no exterior, mas ela não desiste e afirma querer que o Brasil conheça o seu trabalho. “Talvez ganhar o mundo seja até mais fácil do que ganhar o meu país, como isso se mostrou para mim quando eu tinha 20 anos. É uma mentalidade da gente de não valorizar o que é nosso”. Mariene é mãe, dona-de-casa, cuida da carreira com dignidade, com enorme zelo. Ela não vê muita diferença sua no palco e no dia-a-dia. É uma cantora singular, como não poderia deixar de ser, já que a arte sempre foi uma companheira desde a infância. Quando pequena, um jornalzinho do trabalho da tia entrevistou os filhos dos funcionários e perguntou o que eles gostariam tornar-se ao crescerem. Mariene, ao ser entrevistada, respondeu de pronto: “Cantar, dançar e batom”. Como é clara a visão que, desde criança, sentia o chamado de ser uma artista. O público agradece neste mar de samba e sai com a alma lavada. |